Depois de quase vinte anos desde o primeiro episódio, Dexter retorna à tela com sua décima primeira temporada — e, ironicamente, encontra na própria morte a chance de — a série — se redimir. “Dexter: Ressurreição” é, acima de tudo, a tentativa de consertar o que a série construiu e destruiu ao longo do tempo: uma trajetória que começou brilhante, mergulhou no absurdo e agora tenta encontrar um sentido entre o sangue e a consciência.Depois de quase vinte anos desde o primeiro episódio, Dexter retorna à tela com sua décima primeira temporada — e, ironicamente, encontra na própria morte a chance de — a série — se redimir. “Dexter: Ressurreição” é, acima de tudo, a tentativa de consertar o que a série construiu e destruiu ao longo do tempo: uma trajetória que começou brilhante, mergulhou no absurdo e agora tenta encontrar um sentido entre o sangue e a consciência.
ATENÇÃO: contém SPOILERS de todas as temporadas de Dexter e Dexter: Ressurreição.
As oito primeiras temporadas de Dexter deixaram uma herança ambígua. Um final amargo: um desfecho apressado, mortes convenientes demais e uma sensação de Deus Ex-Machina dissolvendo tudo o que a série tinha de melhor. As quatro primeiras temporadas continuam sendo o auge — o Ice Truck Killer, o Bay Harbor Butcher e o inigualável Trinity criaram um padrão quase impossível de repetir, tanto que “a memória” deles estão em “Ressurreição”.
Em 2021, “Dexter: New Blood” veio como uma tentativa de redenção, de apagar o final deprimente da oitava temporada. Dexter, agora com novo nome, Jim Lindsay, é um homem em busca de paz. Ao invés de Harry, agora quem o assombra é o fantasma de Deb. Dexter: New Blood”é uma série mais lenta e introspectiva, mais focada na construção de relação de pai e filho. Também tem um vilão a altura de Dexter, Kurt Caldwell, interpretado com uma precisão absurda de incrível, é um homem tão perturbado quanto Trinity e impetuoso quanto o Ice Truck Killer, e em busca de vingança.
“Dexter: New Blood” é cheio de acertos, o problema está no final, abrupto e quase cínico. Uma paródia grotesca do final da oitava temporada. Dexter morre pelas mãos do filho, um parricida instável e carente. Fica claro que o que Harry conseguiu fazer por Dexter não foi bem sucedido entre ele e Harisson. Ao mesmo tempo que Dexter falha como pai, o adolescente falha como filho. O disparo do rifle contra Dexter é um grito de fúria ecoando “eu não te entendo e você não me entende”.
E é justamente daí que a “Ressurreição” renasce!
“Dexter: Ressurreição” começa com o brado: “It’s alive!”

Dexter sobreviveu. O tiro não foi fatal — o frio e o socorro rápido impediram o colapso. Ele desperta em um hospital de Iron Lake e reencontra um velho conhecido: Angel Batista, que o confronta com o passado e suas suspeitas. É o ponto de partida para a nova fuga — desta vez, para Nova York.
Aqui, “Dexter: Ressurreição” encontra um novo pulso. A cidade é mais do que cenário: é uma criatura viva, caótica, pulsante, que reflete o labirinto moral de seu protagonista. Michael C. Hall retorna com vigor — mais maduro, mais sarcástico e com uma ironia que não havia nas temporadas anteriores mantida nos diálogos com Harry. Seu Dexter está cansado, mas consciente. Chega a ser poético vê-lo tentar novamente ser pai e assassino, humano e monstro.
A relação entre Dexter e Harrison continua como eixo emocional da temporada. Se “Dexter: New Blood” mostrou uma tentativa de paternidade baseada no sangue e morte, e falha nisso, em “Ressurreição” é a aceitação que seu filho não é igual a você. O reencontro entre os dois é uma espécie de redenção tardia — de um lado, a busca de um filho, do outro, a aceitação de um pai. Harrison precisa de um guia, e Dexter precisa ser mais do que seu código.

Entre essa busca e o sangue derramado, surgem novos personagens que ampliam o universo da série. O bilionário Leon Prater, vivido por Peter Dinklage, é o tipo de antagonista que instiga dúvida até o fim. Seu “clube de assassinos” flerta perigosamente com o fascínio real que o público tem por monstros carismáticos. Krysten Ritter brilha como Mia Lapierre, assassina enigmática que provoca Dexter — e o espectador — sobre o desejo e o perigo.
Há também espaço para delicadeza. O motorista de táxi Blessing Kamara, interpretado por Ntare Mwine, cria com Dexter uma relação quase redentora, um contraste entre luz e sombra que humaniza o protagonista sem forçá-lo a ser bonzinho.

Um destaque técnico notável é a trilha sonora — mais pulsante com o rock clássico, numa atmosférica mais densa, conduzindo o espectador como uma segunda consciência. É o tipo de trabalho musical que sabe quando respirar e quando apertar o cerco. A Paramount percebeu o valor disso, lançando uma playlist oficial no Spotify — um detalhe que mostra o cuidado em tratar Dexter não apenas como produto, mas como mito pop.
O desfecho da temporada abre portas, mas fecha feridas. Pela primeira vez em anos, Dexter parece confortável no próprio caos. Ressurreição não tenta ser maior do que é, apenas faz justiça àquilo que a série foi, e talvez sempre quis ser: um estudo sobre culpa, controle e legado.
Michael C. Hall entrega a melhor versão de Dexter desde a era Trinity. A série, enfim, entende que o monstro não precisava morrer — só precisava reconhecer o que era.
E talvez por isso o nome mais justo não fosse Ressurreição, mas Salvação.
Dexter e Dexter: Ressurreição estão disponíveis na Paramount Plus.






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